segunda-feira, 20 de maio de 2013

Reflexão Sobre a Identidade da Fotografia Contemporânea

A fotografia está em crise!
Ouso até mesmo dizer, que toda a arte está em crise.
Durante toda a história da arte, acompanhamos sua gradativa evolução, percebendo em acontecimentos históricos importantes, pontos chave para quebra de paradigmas e a introdução de novos conceitos que vieram a mudar o conceito de arte como, até então, era conhecido. 
Para ilustrar esse cenário, basta percorrermos, sucintamente, toda essa progressão, partindo da arte clássica, fundamentalmente religiosa e que buscava materializar a idealização do belo, passando pelo Renascimento, que procurou estudar o corpo do próprio homem, buscando a perfeição matemática de suas proporções, indo de encontro ao Realismo, que, com o avanço tecnológico, sentiu a necessidade de apresentar o mundo como algo concreto, científico e objetivo, para então chegarmos ao Impressionismo, que procurou retratar a espontaneidade da sociedade de sua época, e todas as demais vanguardas que vieram posteriormente, como o Expressionismo, o Dadaísmo e o Surrealismo, que, em contraponto a sociedade desestabilizada do pós Primeira Guerra Mundial, buscaram no abstrato e no ilusório uma fonte de reflexão.
O grande problema é que, sendo, a história da arte, assim tão rica, não nos sobram elementos para compor uma obra realmente original.
Se o artista se incomoda com a opressão imposta pela sociedade capitalista e deseja incorporar isso a sua obra, os Românticos já o fizeram, quando exaltaram a liberdade da natureza em contraponto a sufocante cidade grande. Se esse artista decide então mudar seu foco e enaltecer o progresso tecnológico, se depara com o que há muito tempo já pregavam os Futuristas. Se, já sem paciência, resolve simplesmente lançar a tinta sobre uma tela, sem compromisso nenhum com a sociedade, com a tecnologia, com a beleza ou qualquer outra motivação político-social, acaba se assemelhando aos displicentes Dadaístas.
Pobre artista. Dessa forma, sua obra não será mais do que um enorme apanhado de referências, das mais variadas possíveis. A arte em sua obra não poderá se fundamentar apenas na originalidade temática, mas sim na maestria com que essas referências são orquestradas dentro de sua composição.

...

Bom, tendo apresentado meu ponto de vista sobre a arte contemporânea, volto então a falar sobre fotografia, o assunto que incitou todo esse discurso.
A fotografia também teve sua evolução através do tempo, partido do simples registro analógico da realidade, passando pelo Pictorialismo, onde almejava alcançar um lugar junto às artes, se assemelhando a pintura acadêmica, até finalmente alcançar sua linguagem própria, criando algo realmente original e que somente ela mesma poderia criar.
No entanto, no mundo contemporâneo, em crise de identidade, onde a originalidade real é escassa, qual seria a identidade da fotografia?
O avanço tecnológico popularizou a fotografia, não somente no simples sentido fotografar, mas também no que diz respeito à disseminação do material produzido e da manipulação desta imagem, o que antes só podia ser feito por profissionais detentores da técnica específica.
Atualmente, a maioria das pessoas carrega consigo um telefone celular com câmera, o que possibilita, a qualquer um, poder fotografar, a qualquer momento.
Não é incomum vermos, nos noticiários, fotos ou vídeos feitos por amadores, que, por estarem no lugar certo e na hora certa, conseguiram esse material. É como o instante decisivo de Robert Capa e Cartier-Bresson, porém com maior dinamismo, simplicidade e, às vezes, vulgaridade.
A internet também veio para facilitar absurdamente a divulgação de qualquer material. Com o mesmo telefone usado para fotografar, o fotógrafo amador consegue, com alguns simples comandos de teclado, atribuir efeitos a suas fotos, como torná-la preta e branca, envelhecer a imagem ou inverter as cores de positivo para negativo, e disponibilizá-la para todo o mundo através das redes sociais.
Obviamente que nem tudo nessa popularização é positivo. A facilidade e dinamicidade da fotografia contemporânea, também proporcionaram a banalização do ato de fotografar, o que contribuiu fortemente com sua crise de identidade.
A fotografia digital não obriga o fotógrafo a buscar o momento ideal para o click, ou o melhor enquadramento, ou a melhor iluminação, ou a melhor pose, pois quase sempre há a opção de fazer outra foto. Tornou-se rotineiro ouvir, da pessoa fotografada, a expressão “Não gostei! Tira outra?”, o que torna fotografia algo desprezível, algo que pode ser substituído por qualquer uma das outras tantas fotos, cuja quantidade só pode ser mensurada pela capacidade do dispositivo de armazenamento.




Mesmo correndo o risco de parecer nostálgico, me sinto tentado a dizer que bons tempos, eram aqueles em que só guardávamos os trinta e seis melhores momentos das nossas férias.
Enfim, posso concluir que a identidade da fotografia contemporânea a torna, não somente aquela mistura de referências que a distancia da originalidade, mas também uma fotografia de consumo, num mundo onde somos bombardeados por uma infinidade de imagens produzidas a todo instante, porém com o único objetivo de ser amplamente visualizada e comentada, alcançando destaque na rede social de quem a produziu.
Dessa forma, pode-se ter a sorte de obter alguma informação útil em primeira mão ou simplesmente ter de apreciar a mais nova foto, com estética envelhecida, de algum conhecido, em meio aos computadores da empresa em que trabalha.





J.A.T. Junior.

Nenhum comentário:

Postar um comentário