A
fotografia está em crise!
Ouso
até mesmo dizer, que toda a arte está em crise.
Durante toda a história da arte, acompanhamos
sua gradativa evolução, percebendo em acontecimentos históricos importantes,
pontos chave para quebra de paradigmas e a introdução de novos conceitos que
vieram a mudar o conceito de arte como, até então, era conhecido.
Para
ilustrar esse cenário, basta percorrermos, sucintamente, toda essa progressão,
partindo da arte clássica, fundamentalmente religiosa e que buscava
materializar a idealização do belo, passando pelo Renascimento, que procurou
estudar o corpo do próprio homem, buscando a perfeição matemática de suas
proporções, indo de encontro ao Realismo, que, com o avanço tecnológico, sentiu
a necessidade de apresentar o mundo como algo concreto, científico e objetivo, para
então chegarmos ao Impressionismo, que procurou retratar a espontaneidade da
sociedade de sua época, e todas as demais vanguardas que vieram posteriormente,
como o Expressionismo, o Dadaísmo e o Surrealismo, que, em contraponto a
sociedade desestabilizada do pós Primeira Guerra Mundial, buscaram no abstrato
e no ilusório uma fonte de reflexão.
O
grande problema é que, sendo, a história da arte, assim tão rica, não nos
sobram elementos para compor uma obra realmente original.
Se
o artista se incomoda com a opressão imposta pela sociedade capitalista e
deseja incorporar isso a sua obra, os Românticos já o fizeram, quando exaltaram
a liberdade da natureza em contraponto a sufocante cidade grande. Se esse
artista decide então mudar seu foco e enaltecer o progresso tecnológico, se
depara com o que há muito tempo já pregavam os Futuristas. Se, já sem
paciência, resolve simplesmente lançar a tinta sobre uma tela, sem compromisso
nenhum com a sociedade, com a tecnologia, com a beleza ou qualquer outra
motivação político-social, acaba se assemelhando aos displicentes Dadaístas.
Pobre
artista. Dessa forma, sua obra não será mais do que um enorme apanhado de
referências, das mais variadas possíveis. A arte em sua obra não poderá se
fundamentar apenas na originalidade temática, mas sim na maestria com que essas
referências são orquestradas dentro de sua composição.
...
Bom,
tendo apresentado meu ponto de vista sobre a arte contemporânea, volto então a
falar sobre fotografia, o assunto que incitou todo esse discurso.
A
fotografia também teve sua evolução através do tempo, partido do simples
registro analógico da realidade, passando pelo Pictorialismo, onde almejava
alcançar um lugar junto às artes, se assemelhando a pintura acadêmica, até finalmente
alcançar sua linguagem própria, criando algo realmente original e que somente
ela mesma poderia criar.
No
entanto, no mundo contemporâneo, em crise de identidade, onde a originalidade
real é escassa, qual seria a identidade da fotografia?
O
avanço tecnológico popularizou a fotografia, não somente no simples sentido
fotografar, mas também no que diz respeito à disseminação do material produzido
e da manipulação desta imagem, o que antes só podia ser feito por profissionais
detentores da técnica específica.
Atualmente,
a maioria das pessoas carrega consigo um telefone celular com câmera, o que
possibilita, a qualquer um, poder fotografar, a qualquer momento.
Não
é incomum vermos, nos noticiários, fotos ou vídeos feitos por amadores, que,
por estarem no lugar certo e na hora certa, conseguiram esse material. É como o
instante decisivo de Robert Capa e Cartier-Bresson, porém com maior dinamismo,
simplicidade e, às vezes, vulgaridade.
A
internet também veio para facilitar absurdamente a divulgação de qualquer
material. Com o mesmo telefone usado para fotografar, o fotógrafo amador
consegue, com alguns simples comandos de teclado, atribuir efeitos a suas
fotos, como torná-la preta e branca, envelhecer a imagem ou inverter as cores
de positivo para negativo, e disponibilizá-la para todo o mundo através das
redes sociais.
Obviamente
que nem tudo nessa popularização é positivo. A facilidade e dinamicidade da
fotografia contemporânea, também proporcionaram a banalização do ato de
fotografar, o que contribuiu fortemente com sua crise de identidade.
A
fotografia digital não obriga o fotógrafo a buscar o momento ideal para o click, ou o melhor enquadramento, ou a
melhor iluminação, ou a melhor pose, pois quase sempre há a opção de fazer
outra foto. Tornou-se rotineiro ouvir, da pessoa fotografada, a expressão “Não
gostei! Tira outra?”, o que torna fotografia algo desprezível, algo que pode
ser substituído por qualquer uma das outras tantas fotos, cuja quantidade só
pode ser mensurada pela capacidade do dispositivo de armazenamento.
Mesmo
correndo o risco de parecer nostálgico, me sinto tentado a dizer que bons
tempos, eram aqueles em que só guardávamos os trinta e seis melhores momentos
das nossas férias.
Enfim,
posso concluir que a identidade da fotografia contemporânea a torna, não
somente aquela mistura de referências que a distancia da originalidade, mas
também uma fotografia de consumo, num mundo onde somos bombardeados por uma
infinidade de imagens produzidas a todo instante, porém com o único objetivo de
ser amplamente visualizada e comentada, alcançando destaque na rede social de
quem a produziu.
Dessa forma, pode-se ter a sorte de obter alguma
informação útil em primeira mão ou simplesmente ter de apreciar a mais nova
foto, com estética envelhecida, de algum conhecido, em meio aos computadores da
empresa em que trabalha.
J.A.T. Junior.