segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Confie

Não me julgue um bêbado inveterado
Ou um puto desalmado
Sou boêmio declarado
Mesmo assim apaixonado


J.A.T. Junior

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O Inseto Beija-Flor -- Capítulo Final

Assistido de longe pelo Fazendeiro o ofegante Beija-Flor conseguiu, após um vôo rasante sobre o mesmo lago onde mais cedo quase se afogara ao seguir sua amiga Libélula, despistar as furiosas abelhas, que se assustaram ao serem molhadas pela água levantada pelo bater de asas do pequeno pássaro. Ele concluiu então que beber de flores reais, apesar de muito mais saboroso, podia também ser muito mais perigoso. As flores de plástico lhe pareciam mais seguras e por isso ele voltou aliviado ao bom e velho bebedouro.
Bebendo prazerosamente daquele líquido adocicado o Beija-Flor fechou seus olhinhos e suspirou enquanto sugava. Sentia-se calmo e relaxado quando, ao abrir novamente os olhos, sentiu seu coração acelerar e de sobressalto afastou-se agilmente da colorida flor artificial. Bem diante de seus olhos alguém tentava, com todas as suas forças, desgrudar e levantar uma grande massa de uma espécie de melado, incrustado em torno da flor. Alguém que, assim como o jovem pássaro, assustou-se, gritou algum tipo de exclamação que só se usa em momentos de grande pavor e correu sobre a superfície do bebedouro para se esconder atrás do mesmo.
Ambos, movidos pela curiosidade, acabaram desconfiada vagarosamente voltando a se entreolhar. Pela primeira vez em sua vida o pequeno Beija-Flor vislumbrou uma Formiga.
- Quem é você? O que você estava fazendo? – Perguntou o pássaro.
- Estou tentando arranjar comida, seu grande desastrado! – Agitou-se a Formiga – Você quase me matou do coração, sabia?!
- Me desculpe, mas eu também estava me alimentando e não percebi a sua chegada.
- Você gosta de açúcar é? – Perguntou a pequena Formiga, interessada naquele desconhecido espécime.
- Açúcar? – Confundiu-se o Beija-Flor.
- É, água com açúcar. Isso que você estava bebendo. – a Formiga apontou para o recipiente onde o líquido adocicado estava armazenado – Até que bom, mas fica ainda melhor depois que seca. – ela então pegou um pouco do melado e provou – Hum, delicioso!
O pequeno Beija-Flor se prontificou a provar um pouco, mas não teve tempo. A Formiga logo começou a falar novamente e ele parou pra prestar atenção.
- Eu já tinha ouvido falar de grandes formigas com asas, mas nunca tinha conhecido nenhuma antes... – iniciou, ela, as suas conclusões – Mas se você gosta tanto de açúcar você só pode ser uma delas. É um prazer conhecê-lo!
O jovem pássaro se viu confuso mais uma vez. Até aquele momento ele já havia sido uma Libélula, um Pernilongo e uma Abelha... Por que não uma Formiga?
Ele então seguiu sua nova amiga até o lugar onde, segundo ela, era o paraíso dos doces. A cozinha da fazenda.
A atitude daquele filhote de Beija-Flor muito impressionava o Fazendeiro. Sorrateiramente ele acompanhou o pássaro até o seu destino e não conseguia compreender o que aquela ave planejava em sua cozinha até perceber que em sua companhia estava um minúsculo pontinho preto. A dolorida picada e o enxame de abelhas começaram então a fazer sentido, quando ele percebeu que o pássaro agora, assim como sua companheira Formiga, estava tentando roubar seus doces.
- Bolo de fubá, canjica, balas de coco, goiabada, doce de leite... – a Formiga delirava em meio a tantas opções – Esse só pode ser o melhor lugar do mundo!
O Beija-Flor sentiu-se tentado a experimentar todas aquelas guloseimas, mas foi interrompido pela amiga.
- Não devemos comer ainda. O inverno está chegando e temos irmãs que precisam de nós. – a leal Formiga parou por um momento, lembrando-se da família que a aguardava em sua colônia – Temos que levar isso tudo pro formigueiro e lá teremos uma grande festa de inverno.
O pequeno Beija-Flor começou a estranhar aquela conversa. Essa estória de levar a comida para a colônia já lhe era bem familiar e não lhe trazia boas lembranças. Apesar disso, ele resolveu ajudar sua nova amiga, afinal, as coisas poderiam ser bem diferentes agora que ele não havia comido tudo o que deveria levar.
Os dois seguiram então seu caminho rumo a formigueiro, ele equilibrando um grande e pesado pedaço de bolo de fubá sobre as costas e ela, quase sem demonstrar esforço, carregando uma jujuba inteira.
Discretamente o Fazendeiro os seguia, interessadíssimo.
Chegando ao formigueiro, eles escalaram aquele pequeno morro de forma vulcânica e a Formiga rolou sua jujuba pela pequena entrada circular em seu topo. Felizes, muitas outras formigas surgiram de dentro da colônia para ajudá-los a picar o grande pedaço de bolo e empurrá-lo também pra dentro.
Todos pareciam estar muito alegres com a aproximação do grande festival de inverno e, seguidos pelo novo integrante da família, se encaminharam cantantes em uma espécie de trenzinho através da pequenina entrada do formigueiro. Porém, após passar a última Formiga, o pequeno, mas não pequeno o bastante, Beija-Flor tentou também adentrar a caverna e acabou se entalando de ponta cabeça naquele apertado buraquinho circular.
As formiguinhas gritavam e tentavam puxá-lo pra baixo, mas, apesar de sua grande força, qualquer esforço parecia inútil. O ar começou a se esvair daquele minúsculo espaço enquanto jovem pássaro se debatia e se agitava desesperadamente, mas não conseguia se mover nem pra dentro nem pra fora do sufocante formigueiro.
Todos estavam desacreditados e sem forças quando de repente, como que por milagre, o bondoso Fazendeiro agarrou a pequena ave e puxou-a para fora do diminuto buraco.
Sorrindo e acariciando as coloridas penas do jovem e confuso Beija-Flor o Fazendeiro nada disse, mas levou-o até a árvore de onde mais cedo caíra e postou-o de volta ao ninho onde sua agitada mãe chorava a ausência do filho.
- Meu filho... – emocionou-se ela, ao vê-lo são e salvo. – Você está vivo!
- Mamãe! - o pequeno Beija-Flor, ao ouvir o cantar da mãe, sentiu suas memórias lentamente se avivarem em sua mente e, também emocionado, correu ao seu encontro, abraçando-a com toda sua força.
O pequeno Beija-Flor finalmente descobrira sua identidade e encontrara seu verdadeiro lar. Sua euforia era tamanha que mal podia esperar para contar a mãe toda sua jornada. Jornada qual ele contaria também para seus filhos e netos.*
- Mamãe, eu visitei lugares incríveis, conheci novos amigos...
A mãe se alegrava ao ver a felicidade com que o filho relatava seus feitos, mas interrompeu-o, sorrindo gentilmente:
- Eu quero saber de tudo, meu filho, mas depois de tantas aventuras você deve estar faminto, não?
O jovem Beija-Flor parou seu relato, surpreso por ter momentaneamente esquecido da fome que já o acompanhava há algum tempo. Sentiu então seu estômago roncar.
- Oba, comida! – Animou-se ele ainda mais. Porém, uma nova dúvida surgiu em sua mente – Mamãe, o que os beija-flores comem?
- Bom, meu filho, basicamente néctar e... Insetos.

FIM


*Final Alternativo Para Crianças:

- Mamãe, eu visitei vários lugares lindos, conheci novos amigos...
E assim as aventuras do jovem Inseto Beija-Flor foram contadas geração após geração através de uma linhagem longa e próspera. Todos juntos, os Beija-Flores viveram felizes para sempre.

FIM
 
 
J.A.T. Junior.