segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Reflexão Sobre O Admirável Mundo Novo

Oh Ford, como é possível alguém ter escrito um livro em 1932 que ainda hoje possa ser tão atual e, de certa forma, ter previsto muitos dos aspectos dessa nossa sociedade contemporânea?

São realmente incríveis as semelhanças entre a utópica sociedade descrita por Aldous Huxley em sua obra e o admirável mundo onde vivemos.

Obviamente, ainda não circulamos pela cidade em helicópteros e nem mesmo somos produzidos em série em um fábrica de embriões (mesmo que em certos níveis sociais pareça realmente existir uma produção em série), porém nossos veículos agregam cada vez mais tecnologia, ultrapassando até os limites da imaginação de Aldous, e o poder de manipulação exercido pela mídia em nosso contexto atual é em muito capaz de fabricar e moldar seres humanos.

Assim como as castas do admirável mundo novo, nossa sociedade é claramente dividida através de parâmetros diversos, que englobam não somente níveis sociais (dinheiro, grana, money, bufunfa), como também níveis de escolaridade, padrões comportamentais e outros, que hão de definir quem você é para a sociedade.

“Diga-me com quem andas que eu te direi que és”... Se você é um Alfa, deve se portar como um. E é aí que nosso poderoso sistema midiático entra, inserindo em nossas mentes de forma subjetiva e gradual, assim como a hipnopédia da obra, desde que somos crianças, aquilo que nos é exigido como integrantes de um grupo distinto.

Normalmente as pessoas tendem a se relacionar com seus semelhantes, possibilitando que todas as classes perpetuem. A grande diferença é que a utopia do admirável mundo novo permite que ninguém, pertencendo à casta que pertencer, sinta-se infeliz com sua realidade (e caso venha a se sentir, sempre existe o Soma), garantindo essa perpetuação de maneira natural, enquanto que nós ainda não alcançamos esse patamar e constantemente nos apresentamos frustrados com nossas condições (Infelizmente ainda não descobrimos uma droga eficiente e sem efeitos colaterais que possa afastar os descontentamentos). Para contornar esse problema nossa maquiavélica sociedade dispõe de um recurso que talvez seja o mais importante para o capitalismo que nos rege. A nós é permitido almejar e ascender dentro da sociedade.  

A sociedade de Huxley é totalmente voltada para o cosumismo, mas sempre determinado pela casta a que pertence o indivíduo (isso pode ser facilmente percebido através dos pertences distintos de cada um e até pelos jornais diferentes que cada casta tem acesso), enquanto que (como havia citado, para a felicidade do capitalismo), na nossa sociedade temos a liberdade e acesso ao consumo de qualquer coisa que desejarmos.

Logicamente que nem todos podem comprar um iate, não porque lhe seja proibido, mas sim por limitações financeiras. Ainda assim nosso articulado sistema oferece inúmeras possibilidades de crediários, carnês, financiamentos, empréstimos e sei lá quantas outras formas de se alcançar o que se deseja, e isso tudo gera, em nossas mentes consumistas e sedentas por se assemelhar as classes mais altas, uma agradável ilusão de estarmos cada vez mais próximos do glamour e do sucesso.

Digo que é uma ilusão baseando-me em uma opinião própria e que pode até ser um tanto extremista, mas o que percebo olhando para o mundo onde vivemos é que dificilmente alguém, de fato, alcança um nível superior. São poucas as pessoas que tem ímpeto suficiente para lutar contra todos os obstáculos que se impõe em seu caminho rumo ao sucesso, e essas que conseguem acabam se tornando verdadeiros ídolos e servindo ao propósito maior que é aumentar a ilusão daqueles que mesmo inconformados com sua situação continuam seguindo metódica e comodamente suas vidas normais, garantindo assim a perpetuação de sua classe social.

Como adepto desse regime, entendo e não posso deixar de concordar que cada uma dessas classes sociais é necessária para a sobrevivência das outras e por isso não existe realmente uma intenção em fazer com que a pobreza seja extinta.

Assim como as castas inferiores idealizadas por Aldous Huxley, os pobres são necessários em nossa sociedade para cumprir tarefas quais os mais bem afortunados não estão dispostos a exercer (os chamados sub-empregos).  Isso é facilmente percebido quando olhamos para os países desenvolvidos da Europa, uma sociedade basicamente aristocrática, e vemos trabalhadores, importados do terceiro mundo, felizes em poder executar essas funções, pois os lavadores de pratos, garçons, jardineiros e babás de lá podem ganhar até mais do que os profissionais graduados daqui.

Enfim, como infelizmente, apesar de muito mais acessível no contexto atual, o sexo ainda não foi totalmente banalizado como na obra de Huxley, para garantir que nosso sofrimento seja ameno, mesmo que ainda não tenhamos um cinema sensorial, podemos esquecer nossas diferenças para com a sociedade nos entretendo em frente às magníficas imagens que transbordam das telas dos mais modernos e inovadores cinemas 3D (que mais uma vez surgem para instigar nossa compulsão pelo consumo).


J.A.T. Junior.